Musculatura profunda: o que ela faz, e o que ela não faz

Força 28 de setembro de 2026 6 min de leitura
Homem atlético descalço em prancha sobre um reformer de madeira, corpo em linha da cabeça aos calcanhares, em estúdio escuro com luz lateral.

Pouca gente sabe apontar onde fica a musculatura profunda, e quase todo mundo já ouviu que precisa fortalecê-la. Entre uma coisa e outra se formou um conjunto de promessas que a pesquisa não confirma, e uma verdade que costuma ficar escondida atrás delas. Este texto separa as duas.

O que se chama de musculatura profunda

É o conjunto de músculos que fica mais perto das articulações e da coluna. Os mais citados são o transverso do abdome, os multífidos, o diafragma e o assoalho pélvico, que juntos formam as paredes de uma espécie de cilindro em volta da coluna lombar. É boa parte do que se costuma chamar de core. No quadril e no ombro, o papel equivalente é feito pelos rotadores profundos e pelos estabilizadores da escápula.

O que eles têm em comum é o jeito de trabalhar. São músculos curtos, próximos do eixo do movimento, que atuam de forma contínua e com pouca fadiga. Não foram feitos para gerar grandes movimentos nem para crescer muito. Foram feitos para manter cada segmento no lugar enquanto o resto do corpo se move.

A musculatura superficial é a outra camada: reto do abdome, oblíquos, glúteo máximo, grande dorsal, quadríceps. São músculos longos, que cruzam várias articulações, produzem força grande e aparecem no espelho.

Sustentação e movimento: um modelo útil, e onde ele para

Essa divisão tem uma origem precisa. Em 1989, um estudo sueco de Anders Bergmark, que analisou a coluna com as ferramentas da engenharia mecânica, propôs separar os músculos do tronco em dois sistemas. Um local, ligado diretamente às vértebras e responsável pela estabilidade entre os segmentos. E um global, que move o tronco e transfere carga entre a caixa torácica e a pelve.

Sete anos depois, pesquisadores australianos observaram que, em pessoas com dor lombar, o transverso do abdome demorava mais para se ativar diante de um movimento rápido do braço. Esse achado deu origem a uma geração inteira de exercícios de ativação e estabilização.

O modelo é útil, e é com ele que a gente raciocina. Mas vale saber onde ele para. O recrutamento muscular depende da tarefa, e vários músculos trabalham nas duas funções conforme a situação. A divisão entre sustentação e movimento é uma forma de pensar o corpo, não uma lei anatômica.

O que a evidência sustenta com força

Existe uma afirmação sobre força e lesão que a ciência sustenta de forma robusta, e ela é mais ampla do que costuma aparecer.

Uma meta-análise publicada em 2014 no British Journal of Sports Medicine reuniu 25 ensaios clínicos randomizados, com mais de 26 mil participantes, e comparou diferentes estratégias de prevenção de lesão no esporte. O treino de força reduziu as lesões esportivas para menos de um terço, e as lesões por sobreuso para quase a metade. O alongamento, no mesmo estudo, não mostrou efeito preventivo.

Uma nova análise dos mesmos autores, em 2018, encontrou relação de dose e resposta: quanto mais volume de treino de força, maior a proteção.

O que a evidência mostra, portanto, é que força bem construída protege. A pergunta que sobra é como construí-la.

O que ela ainda não sustenta

Aqui entra a parte que costuma ficar de fora.

Treinar a musculatura profunda de forma isolada, como técnica específica, não mostrou vantagem consistente sobre outras formas de exercício. Uma revisão Cochrane de 2016 comparou o exercício de controle motor, que trabalha justamente essa ativação, com outras abordagens para a dor lombar crônica. Ele foi melhor do que uma intervenção mínima, mas sem diferença clinicamente importante em relação a outros exercícios.

No desempenho esportivo o quadro é parecido. Uma revisão sistemática de 2012 concluiu que o treino direcionado de estabilidade do tronco, o chamado fortalecimento do core, traz benefício marginal para o desempenho atlético. E em 2010 o pesquisador Eyal Lederman publicou uma crítica muito citada ao próprio conceito, argumentando que o ensino generalizado de contrair o abdome e travar o tronco se apoiava em premissas que a pesquisa não confirmava.

Isso não quer dizer que a musculatura profunda não importe. Quer dizer que contraí-la isoladamente, e só isso, não é o que produz o resultado.

Então por que trabalhamos isso, e em que ordem

Porque a pergunta nunca foi se a musculatura profunda deve ser trabalhada sozinha. É se ela está fazendo a parte dela quando o corpo recebe carga.

Quando a camada de sustentação não entra no tempo certo, a carga precisa ir para algum lugar. Quem assume é a musculatura superficial, que passa a fazer dois trabalhos ao mesmo tempo: mover e segurar. É o que descrevemos no artigo sobre biomecânica e compensação muscular, quando um músculo sai de cena e outro cobre a ausência dele.

O raciocínio que orienta o trabalho aqui é este: primeiro o segmento aprende a ficar no lugar sob carga, depois a carga cresce. Uma articulação bem centrada distribui a força para quem foi desenhado para recebê-la. E a musculatura superficial, livre de uma função que não é a dela, pode ser fortalecida com mais carga, com mais continuidade e com menos compensação.

Vale ser exato sobre o que isso é. Essa é a lógica com que trabalhamos, e ela explica o que observamos na prática. Não é um resultado demonstrado em ensaio clínico. A parte demonstrada é a que vimos acima: força bem construída protege. O que o método faz é organizar o caminho até ela.

O que muda para quem treina pesado

A musculatura profunda não constrói volume muscular. Hipertrofia depende de carga alta, volume de treino organizado, progressão ao longo de meses e uma nutrição que sustente o processo.

O fortalecimento mais pesado da musculatura superficial acontece na musculação, e também nos aparelhos do Pilates, que permitem progredir carga. Para volume em grupos musculares específicos, o caminho principal continua sendo o treino resistido organizado para hipertrofia.

O que a musculatura profunda faz é outra coisa, e é por isso que ela interessa a quem treina pesado. Um tronco e um quadril que sustentam permitem progredir carga sem que a coluna ou o joelho paguem a conta. E progressão sem interrupção é o que produz resultado ao longo dos anos. Quem para três meses por lesão a cada ano não perde só três meses: perde o ciclo inteiro.

Explicamos em detalhe de onde o volume realmente vem, e onde o Pilates entra nessa conta, no artigo sobre ganho de massa magra.

O que muda para quem pratica esporte

No esporte, a força raramente é produzida onde ela é usada. No arremesso, ela nasce no pé de apoio, atravessa o quadril e o tronco e só então chega à mão. Na corrida e nas mudanças de direção, o tronco precisa ficar estável enquanto as pernas absorvem e devolvem o impacto.

Se o elo do meio cede, duas coisas acontecem. A força se perde no caminho, e o gesto rende menos. E a carga que não foi absorvida onde deveria vai parar em outro lugar, geralmente num tendão ou numa articulação que não foi feita para recebê-la.

É por isso que o trabalho de sustentação entra junto com o treino de força e com o treino específico do esporte, e não no lugar deles. É a mesma lógica dos quatro padrões do movimento: ficar em pé, caminhar, correr e arremessar dependem de um centro que transmite a força em vez de dissipá-la.

Referências

  1. Bergmark, A. (1989). Stability of the lumbar spine: a study in mechanical engineering. Acta Orthopaedica Scandinavica Supplementum, 230, 1-54. doi:10.3109/17453678909154177
  2. Hodges, P. W., & Richardson, C. A. (1996). Inefficient muscular stabilization of the lumbar spine associated with low back pain: a motor control evaluation of transversus abdominis. Spine, 21(22), 2640-2650. doi:10.1097/00007632-199611150-00014
  3. Lederman, E. (2010). The myth of core stability. Journal of Bodywork and Movement Therapies, 14(1), 84-98. doi:10.1016/j.jbmt.2009.08.001
  4. Reed, C. A., Ford, K. R., Myer, G. D., & Hewett, T. E. (2012). The effects of isolated and integrated "core stability" training on athletic performance measures: a systematic review. Sports Medicine, 42(8), 697-706. doi:10.2165/11633450-000000000-00000
  5. Lauersen, J. B., Bertelsen, D. M., & Andersen, L. B. (2014). The effectiveness of exercise interventions to prevent sports injuries: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. British Journal of Sports Medicine, 48(11), 871-877. doi:10.1136/bjsports-2013-092538
  6. Saragiotto, B. T., Maher, C. G., Yamato, T. P., et al. (2016). Motor control exercise for chronic non-specific low-back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews, (1), CD012004. doi:10.1002/14651858.CD012004
  7. Lauersen, J. B., Andersen, T. E., & Andersen, L. B. (2018). Strength training as superior, dose-dependent and safe prevention of acute and overuse sports injuries: a systematic review, qualitative analysis and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 52(24), 1557-1563. doi:10.1136/bjsports-2018-099078

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