Pouca gente pensa no assoalho pélvico até que ele dê sinal: um escape de urina ao tossir, ao pular ou ao correr. Nessa hora, é comum ouvir que isso é normal depois do parto ou com a idade. É frequente, mas não precisa ser aceito como normal, e o tratamento de primeira linha é um dos mais bem estudados da fisioterapia.
O que é o assoalho pélvico?
É o conjunto de músculos, ligamentos e fáscias que fecha a parte de baixo da pelve, como uma rede presa entre o púbis, o cóccix e os ossos do quadril. Por ele passam a uretra, a vagina e o reto.
Ele não trabalha sozinho. Faz parte do mesmo cilindro de sustentação que descrevemos no artigo sobre musculatura profunda: o diafragma em cima, o transverso do abdome na frente e dos lados, os multífidos atrás e o assoalho pélvico embaixo. Quando a pressão dentro do abdome sobe, numa tosse, num salto ou ao levantar peso, é esse conjunto que responde.
Para que serve o assoalho pélvico?
Ele tem três funções principais. Sustenta os órgãos da pelve, como a bexiga, o útero e o intestino. Mantém a continência, fechando a uretra e o ânus quando a pressão abdominal aumenta. E participa da função sexual.
Para cumprir essas funções, ele precisa de duas qualidades: força para contrair no momento certo, e capacidade de relaxar. Um assoalho pélvico que fica sempre contraído também causa problemas, como dor. Por isso o objetivo do treino não é só apertar mais.
O que acontece com o assoalho pélvico na gestação e no parto?
Durante a gestação, o peso do bebê e do útero aumenta a carga sobre o assoalho pélvico, e as mudanças hormonais deixam os tecidos mais complacentes. No parto vaginal, os músculos e as fáscias se alongam muito para dar passagem ao bebê. Explicamos o conjunto dessas mudanças no artigo sobre mudanças posturais na gestante.
É por isso que a perda de urina é comum no fim da gestação e nos meses depois do parto. Comum não quer dizer inevitável, e é aqui que o treino entra.
O treino do assoalho pélvico funciona?
Para a incontinência urinária de esforço, a que acontece ao tossir, espirrar ou fazer força, a evidência é forte.
Uma revisão Cochrane de 2018, com 31 ensaios, comparou o treino dos músculos do assoalho pélvico com nenhum tratamento. Entre mulheres com incontinência de esforço, 56% das que treinaram relataram cura, contra 6% do grupo sem tratamento. Somando cura e melhora, foram 74% contra 11%. A qualidade da evidência para esse resultado foi classificada como alta.
Na gestação, a evidência vai na mesma direção. Outra revisão Cochrane, de 2020, com 46 ensaios e mais de 10 mil mulheres, mostrou que gestantes sem incontinência que treinaram o assoalho pélvico durante a gravidez tiveram risco 62% menor de perder urina no fim da gestação, e menor risco também entre três e seis meses depois do parto.
Vale ser exato sobre os limites. Na mesma revisão, o efeito do treino em mulheres que já tinham incontinência persistente depois do parto foi incerto, e há pouca informação sobre o que acontece depois de um ano. A prevenção tem apoio melhor que o tratamento nessa fase específica.
Por que contrair do jeito certo importa?
Porque boa parte das pessoas não contrai do jeito certo quando recebe só uma instrução verbal.
Um estudo de 1991 mediu a pressão de fechamento da uretra em 47 mulheres, depois de uma explicação curta de como fazer o exercício. Só 49% fizeram a contração ideal. Um quarto delas fez força para baixo, como se estivesse empurrando, um movimento que pode favorecer a perda de urina em vez de evitá-la.
A conclusão dos autores continua atual: uma explicação oral ou escrita não basta para começar um programa de exercícios. A contração precisa ser ensinada, conferida e corrigida. A avaliação mais completa do assoalho pélvico é feita pelo fisioterapeuta com formação em saúde pélvica, e a conversa com o seu ginecologista é parte desse caminho.
Onde o Pilates entra no treino do assoalho pélvico?
O Pilates trabalha a respiração, o controle do tronco e a organização da pelve, que são o ambiente em que o assoalho pélvico funciona. Um ensaio de 2010 comparou 24 sessões de Pilates com 24 sessões de treino específico do assoalho pélvico em 62 mulheres sem disfunção importante. Os dois grupos ganharam força muscular do assoalho pélvico, sem diferença entre eles.
O mesmo estudo deixa claro o limite: as participantes não tinham incontinência relevante, e os autores concluíram que ainda é preciso pesquisar se o Pilates trata as disfunções. Por isso, quando existe perda de urina, o treino específico do assoalho pélvico continua sendo o tratamento de primeira linha, e o Pilates entra junto com ele, não no lugar dele.
O que fazemos nas aulas é integrar. A contração aprendida vai para os movimentos: respirar, levantar, carregar, agachar. É nesses momentos que a pressão dentro do abdome sobe, e é neles que o assoalho pélvico precisa responder. Na gestação, isso faz parte do trabalho descrito no artigo sobre Pilates para gestantes, e no pós-parto se soma ao cuidado com a diástase abdominal.
Quando procurar ajuda?
Perder urina ao tossir, rir, pular ou correr, sentir peso ou uma bola na vagina, ter dor na relação ou dificuldade para segurar gases ou fezes são motivos para procurar o seu ginecologista. Nenhum desses sinais precisa ser aceito como parte normal do pós-parto ou da idade.
Se você quer entender como o seu tronco e a sua respiração se organizam no movimento, a aula experimental começa pela avaliação.
Referências
- Dumoulin, C., Cacciari, L. P., & Hay-Smith, E. J. C. (2018). Pelvic floor muscle training versus no treatment, or inactive control treatments, for urinary incontinence in women. Cochrane Database of Systematic Reviews, (10), CD005654. doi:10.1002/14651858.CD005654.pub4
- Woodley, S. J., Lawrenson, P., Boyle, R., et al. (2020). Pelvic floor muscle training for preventing and treating urinary and faecal incontinence in antenatal and postnatal women. Cochrane Database of Systematic Reviews, (5), CD007471. doi:10.1002/14651858.CD007471.pub4
- Bump, R. C., Hurt, W. G., Fantl, J. A., & Wyman, J. F. (1991). Assessment of Kegel pelvic muscle exercise performance after brief verbal instruction. American Journal of Obstetrics and Gynecology, 165(2), 322-329. doi:10.1016/0002-9378(91)90085-6
- Culligan, P. J., Scherer, J., Dyer, K., et al. (2010). A randomized clinical trial comparing pelvic floor muscle training to a Pilates exercise program for improving pelvic muscle strength. International Urogynecology Journal, 21(4), 401-408. doi:10.1007/s00192-009-1046-z
