Quando o joelho dói, é natural olhar para o joelho. Quando a lombar dói, para a lombar. Mas entre as duas regiões existe uma articulação que decide boa parte do que acontece com elas: o quadril. Este texto explica como ele funciona e por que tanta queixa de joelho e de coluna passa por ele.
O que o quadril faz?
O quadril é a articulação entre a pelve e o fêmur, e é cruzado por 21 músculos. Eles movem a coxa em todas as direções e, ao mesmo tempo, mantêm a cabeça do fêmur centrada no encaixe da pelve.
Uma revisão de 2010 sobre a cinesiologia do quadril chama atenção para um detalhe que costuma passar despercebido. Os mesmos músculos que movem a coxa em relação à pelve também movem a pelve em relação à coxa. Quando você está em pé sobre uma perna, é o quadril de apoio que segura a pelve, e com ela a coluna inteira.
Qual é o papel do glúteo médio?
O glúteo médio fica na lateral do quadril. Quando você está apoiado numa perna só, e isso acontece a cada passo da caminhada, ele impede que a pelve caia para o lado da perna que está no ar.
Se ele não dá conta, o corpo compensa. A pelve cai para o lado, ou o tronco tomba para o lado da perna de apoio para diminuir a carga. Em quem corre, sobe escada ou agacha, a compensação costuma aparecer de outra forma: a coxa gira para dentro e o joelho cai para dentro. É o mesmo mecanismo de compensação muscular que descrevemos para o resto do corpo.
Como o quadril afeta o joelho?
O joelho fica no meio do caminho entre o quadril e o pé, e obedece aos dois. Uma revisão de 2010 reuniu estudos biomecânicos e clínicos e concluiu que o controle deficiente do quadril, da pelve e do tronco altera a forma como o joelho recebe carga, e pode estar por trás de lesões como a do ligamento cruzado anterior, a síndrome do trato iliotibial e a dor patelofemoral. O autor classificou esse raciocínio como argumento biomecânico, que é o nível mais baixo de evidência, mas coerente com os estudos que vieram depois.
Um desses estudos acompanhou 205 atletas mulheres de futebol, basquete e vôlei. Nove romperam o ligamento cruzado anterior ao longo do estudo. Nas avaliações feitas antes da lesão, essas nove aterrissavam de um salto com o joelho mais caído para dentro e com uma carga lateral no joelho 2,5 vezes maior que as demais.
Esse é o elo que explicamos no artigo sobre condromalácia patelar: muitas vezes, o joelho paga a conta do que o quadril não controlou.
E como o quadril afeta a lombar?
Quando o quadril perde mobilidade, a lombar costuma compensar. Se a coxa não estende bem para trás, a caminhada e a corrida pedem essa extensão à coluna. Se o quadril não gira, a torção vai para a lombar.
Esse é um raciocínio clínico comum, apoiado na mecânica das articulações, e é por isso que a avaliação de quem tem dor lombar sempre inclui o quadril. Mas vale ser exato: ele não foi demonstrado em ensaio clínico como causa da dor lombar, e a dor lombar raramente tem uma causa única. Contamos mais sobre isso no artigo sobre dor lombar que sempre volta.
O que a evidência mostra sobre fortalecer o quadril?
A evidência mais sólida vem da dor no joelho. Uma meta-análise de 2015 mostrou que, na dor patelofemoral, fortalecer a musculatura do quadril junto com o quadríceps reduz a dor e melhora a função, com benefício que se mantém em um ano. Os consensos internacionais sobre o tema recomendam essa combinação.
Para outras queixas, a lógica é a mesma, mas os estudos são menos numerosos. O que se pode dizer com segurança é que um quadril forte e com boa mobilidade distribui melhor a carga entre as articulações vizinhas.
Onde o Pilates entra no trabalho do quadril?
Nos aparelhos, o quadril pode ser trabalhado em todas as direções, com a carga das molas e com o corpo apoiado, o que permite estabilizar primeiro e integrar no movimento. Deitado de lado, o glúteo médio trabalha sem que o joelho receba carga. Em pé, sobre uma perna, ele passa a fazer o trabalho que faz na vida: segurar a pelve enquanto o corpo se move.
Essa passagem, do apoio para o movimento em pé, é o que organiza o trabalho dentro dos quatro padrões do movimento, e é onde a análise de marcha ajuda a enxergar o que o quadril está fazendo a cada passo. A aula experimental começa por essa avaliação.
Referências
- Neumann, D. A. (2010). Kinesiology of the hip: a focus on muscular actions. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 40(2), 82-94. doi:10.2519/jospt.2010.3025
- Powers, C. M. (2010). The influence of abnormal hip mechanics on knee injury: a biomechanical perspective. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 40(2), 42-51. doi:10.2519/jospt.2010.3337
- Hewett, T. E., Myer, G. D., Ford, K. R., et al. (2005). Biomechanical measures of neuromuscular control and valgus loading of the knee predict anterior cruciate ligament injury risk in female athletes: a prospective study. The American Journal of Sports Medicine, 33(4), 492-501. doi:10.1177/0363546504269591
- Lack, S., Barton, C., Sohan, O., et al. (2015). Proximal muscle rehabilitation is effective for patellofemoral pain: a systematic review with meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 49(21), 1365-1376. doi:10.1136/bjsports-2015-094723
