Quando as costas travam, o instinto é parar tudo e esperar passar. Durante muito tempo, era também o que se recomendava: dias de cama até a dor diminuir. Hoje as diretrizes recomendam praticamente o contrário. Este texto explica o que mudou, e o que isso quer dizer na prática.
Com dor nas costas, devo parar ou continuar me mexendo?
Para a grande maioria das dores nas costas, a recomendação é manter as atividades do dia a dia, dentro do que a dor permite. Não é ignorar a dor nem forçar. É não deixar que ela transforme o corpo num corpo parado.
Uma revisão publicada no The Lancet em 2018 resumiu as diretrizes clínicas de vários países. Elas recomendam, como primeira linha, informação que ajude a pessoa a lidar com a dor, retomada das atividades normais e exercício. A mesma revisão aponta que repouso, exames de imagem e remédios fortes continuam sendo usados muito além do que a evidência justifica.
O que os estudos mostram sobre repouso?
Um ensaio finlandês publicado em 1995 no New England Journal of Medicine comparou três conselhos para pessoas com dor lombar aguda: dois dias de cama, exercícios para as costas, ou seguir a vida normal dentro do limite da dor. Depois de três e de doze semanas, o grupo que seguiu a vida normal estava melhor em quase tudo: menos dor, mais mobilidade e menos faltas ao trabalho. A recuperação mais lenta foi a do grupo que ficou de cama.
Uma revisão Cochrane reuniu os ensaios que compararam o conselho de se manter ativo com o de repousar. Na dor lombar aguda, se manter ativo teve efeito pequeno, mas favorável. E não há evidência de que se manter ativo faça mal. Os autores concluíram que, como o repouso prolongado tem riscos próprios, é razoável recomendar que a pessoa continue ativa.
E quando a dor nas costas não passa?
Quando a dor dura mais de três meses, ela é chamada de crônica, e o exercício passa a ser tratamento. Uma revisão Cochrane de 2021, com 249 ensaios, mostrou com certeza moderada que o exercício reduz a dor lombar crônica quando comparado a nenhum tratamento, com diferença que importa na vida das pessoas.
A mesma revisão é honesta sobre os limites: o efeito na capacidade funcional foi pequeno, e a vantagem sobre outros tratamentos conservadores também. Não existe um tipo de exercício que tenha se mostrado claramente superior. O que funciona é o exercício que a pessoa consegue fazer com regularidade. Falamos mais sobre a dor que volta no artigo sobre dor lombar que sempre volta.
O que o exame diz sobre a minha dor?
Menos do que parece. Uma revisão sistemática de 2015 reuniu ressonâncias e tomografias de mais de 3 mil pessoas sem dor nas costas. Aos 20 anos, 37% já tinham degeneração do disco e 29% tinham protrusão. Aos 80, a degeneração aparecia em 96%.
A conclusão dos autores é que muitos desses achados fazem parte do envelhecimento normal e não estão ligados à dor. Por isso as diretrizes não recomendam exame de imagem para a maioria das dores nas costas, e por isso um laudo com "desgaste" ou "protrusão" não é, sozinho, motivo para parar de se mexer. Quem interpreta o exame no contexto da sua história é o médico.
Quando a dor nas costas pede o médico antes do movimento?
Algumas situações pedem avaliação médica antes de qualquer exercício:
- dor depois de queda ou pancada forte;
- febre, perda de peso sem explicação ou histórico de câncer;
- perda de força nas pernas, formigamento que avança ou dormência na região da virilha;
- dificuldade para controlar a urina ou as fezes;
- dor que não melhora com nenhuma posição, nem à noite.
Os três últimos itens pedem atendimento com urgência.
Onde o Pilates entra na dor nas costas?
O Pilates é uma forma de fazer o que as diretrizes recomendam: voltar a se mover, com segurança, e aos poucos. Nos aparelhos, as molas permitem começar com o corpo apoiado e com pouca carga, em amplitudes que não provocam dor, e ampliar isso semana a semana.
Quando a dor exige tratamento, o exercício é conduzido como fisioterapia, como explicamos na seção sobre Pilates e fisioterapia. Veja também o que muda na prática no artigo sobre Pilates para coluna.
A aula experimental começa pela avaliação.
Referências
- Foster, N. E., Anema, J. R., Cherkin, D., et al. (2018). Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. The Lancet, 391(10137), 2368-2383. doi:10.1016/S0140-6736(18)30489-6
- Malmivaara, A., Häkkinen, U., Aro, T., et al. (1995). The treatment of acute low back pain: bed rest, exercises, or ordinary activity? New England Journal of Medicine, 332(6), 351-355. doi:10.1056/NEJM199502093320602
- Hilde, G., Hagen, K. B., Jamtvedt, G., & Winnem, M. (2006). Advice to stay active as a single treatment for low-back pain and sciatica. Cochrane Database of Systematic Reviews, (2), CD003632. doi:10.1002/14651858.CD003632.pub2
- Hayden, J. A., Ellis, J., Ogilvie, R., et al. (2021). Exercise therapy for chronic low back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews, CD009790. doi:10.1002/14651858.CD009790.pub2
- Brinjikji, W., Luetmer, P. H., Comstock, B., et al. (2015). Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. American Journal of Neuroradiology, 36(4), 811-816. doi:10.3174/ajnr.A4173
