Muitos homens chegam ao Pilates por indicação, depois de uma dor nas costas ou de uma lesão que interrompeu o treino. Poucos chegam por escolha. E a primeira aula costuma desfazer uma ideia que eles trazem: a de que seria uma atividade leve.
Pilates é para homem?
O método foi criado por um homem, Joseph Pilates, que o chamava de Contrologia: a ideia de controlar o corpo pelo movimento. Os aparelhos que ele desenhou usam molas para oferecer resistência, e essa resistência pode ser muito alta.
A pergunta, no fundo, não é sobre gênero. É sobre o que a pessoa precisa. Um homem que treina pesado, corre, joga ou passa o dia sentado tem necessidades que o Pilates atende bem, e outras que ele não atende. Saber separar as duas é o que faz o método valer a pena.
Por que tão poucos homens fazem Pilates?
Em parte, pela imagem que o método ganhou: aulas de solo, movimentos lentos, foco em alongamento. Em parte, porque muitos homens associam treino a carga visível, a peso na barra.
O trabalho nos aparelhos é outra coisa. A mola exige força durante todo o movimento, na ida e na volta, e não deixa o corpo descansar no ponto em que a carga some. Exercícios com o corpo apoiado numa perna, em prancha sobre o carrinho ou sustentando o tronco sem apoio costumam ser difíceis justamente para quem tem força e pouco controle.
O que o Pilates faz por quem já treina força?
Ele trabalha o que o treino tradicional costuma deixar de lado. A musculatura profunda do tronco e do quadril, que mantém cada segmento no lugar enquanto a musculatura grande faz força. A mobilidade do quadril, da coluna torácica e dos ombros, que costuma se perder com anos de treino e de trabalho sentado. E o controle do movimento em uma perna, em rotação e fora do plano em que a maioria dos exercícios de academia acontece.
Isso interessa a quem treina por um motivo prático: continuidade. Uma meta-análise de 2018 mostrou que o treino de força protege contra lesão no esporte, e que a proteção cresce com a dose. Força, portanto, é parte da solução. O que o Pilates acrescenta é a organização do movimento, para que a carga possa crescer sem que a coluna, o ombro ou o joelho paguem a conta. É a lógica que explicamos no artigo sobre compensação muscular.
Vale ser exato: não há ensaios clínicos mostrando que somar o Pilates à musculação reduz lesões. Essa é a lógica com que trabalhamos, apoiada no que se sabe sobre força e controle, e não um resultado demonstrado.
E para a dor lombar?
Aqui a evidência é mais direta. Uma revisão Cochrane de 2015 reuniu dez ensaios sobre Pilates para dor lombar crônica. Nos estudos que compararam o Pilates com cuidados mínimos, como orientações sem exercício, quem fez Pilates teve menos dor e menos limitação nas atividades do dia a dia, e essa melhora se manteve por alguns meses.
Quando o Pilates foi comparado a outros tipos de exercício, os resultados foram parecidos. A mensagem honesta é esta: para a dor lombar, o exercício funciona, e o Pilates é uma boa forma de fazê-lo, não a única. Contamos mais sobre isso no artigo sobre dor lombar que sempre volta.
O que o Pilates não faz?
Ele não é o caminho mais eficiente para maximizar volume muscular. Hipertrofia depende de carga alta, volume organizado e progressão ao longo de meses, e a musculação é a ferramenta mais direta para isso. O Pilates nos aparelhos ganha massa magra, mas com outro objetivo, como explicamos no artigo sobre ganho de massa magra.
Também não substitui o treino específico do esporte. O corredor precisa correr, o jogador precisa jogar. O Pilates entra junto, preparando o corpo para aguentar esse treino.
Como encaixar o Pilates na rotina de treino?
Para quem já treina força, uma ou duas aulas por semana costumam bastar para o objetivo de controle e mobilidade, sem competir com a recuperação.
Para quem está voltando de lesão ou convive com dor, a ordem se inverte: o Pilates vem primeiro, e a carga da academia volta aos poucos. Quando o exercício faz parte do tratamento, ele é conduzido como fisioterapia, como explicamos na seção sobre Pilates e fisioterapia.
A aula experimental começa pela avaliação. É ali que se vê onde o seu corpo compensa, e o que vale trabalhar primeiro.
Referências
- Lauersen, J. B., Andersen, T. E., & Andersen, L. B. (2018). Strength training as superior, dose-dependent and safe prevention of acute and overuse sports injuries: a systematic review, qualitative analysis and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 52(24), 1557-1563. doi:10.1136/bjsports-2018-099078
- Yamato, T. P., Maher, C. G., Saragiotto, B. T., et al. (2015). Pilates for low back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews, (7), CD010265. doi:10.1002/14651858.CD010265.pub2
