"Senta direito." Poucas frases de saúde são repetidas com tanta convicção, e poucas têm tão pouco apoio na pesquisa. A ideia de que existe uma postura correta, e de que sair dela causa dor, é tão comum que quase ninguém questiona. Este texto mostra o que os estudos dizem, e o que isso muda na prática.
Existe postura correta?
Não existe uma única postura correta que sirva para todo mundo. As curvas da coluna variam muito entre pessoas saudáveis, e o mesmo desenho que parece "torto" numa pessoa pode ser o normal de outra.
Em 2008, uma revisão sistemática reuniu 54 estudos sobre as curvas da coluna vistas de lado e a saúde. Os autores não encontraram evidência forte de associação entre essas curvas e nenhum desfecho de saúde, incluindo a dor na coluna. As poucas associações moderadas que apareceram provavelmente não eram de causa e efeito.
Má postura causa dor nas costas ou no pescoço?
A resposta mais honesta é: não da forma como se costuma dizer.
Uma revisão de 2020 analisou 41 revisões sistemáticas sobre postura, tempo sentado ou em pé, flexões, torções e trabalho físico pesado, e a dor lombar. Algumas encontraram associação, outras não, e não houve consenso de que esses fatores causem dor. Associação foi documentada. Causa, não.
No pescoço, o quadro é parecido. Um estudo australiano avaliou a postura sentada de 1.108 adolescentes de 17 anos e identificou quatro padrões, do mais ereto ao mais curvado, com a cabeça projetada para a frente. Não houve diferença de dor no pescoço nem de dor de cabeça entre os grupos. O grupo mais ereto era o que se exercitava com mais frequência.
Um artigo de 2019 de fisioterapeutas pesquisadores resumiu o problema: a crença de que a dor vem de sentar, ficar em pé ou se curvar do jeito "errado" não tem apoio forte na evidência, e mesmo assim sustenta um grande mercado de correções e produtos.
Então postura não importa?
Importa, mas por outro motivo. O problema raramente é a posição em si. É ficar muito tempo na mesma posição, qualquer que seja ela.
O corpo foi feito para variar. Sentar curvado por alguns minutos não faz mal. Ficar oito horas em qualquer posição, mesmo a mais "correta", tende a incomodar. A melhor postura, como se costuma dizer entre fisioterapeutas, é a próxima.
E há um efeito menos visível. Tratar a coluna como algo frágil, que precisa ser mantido reto o tempo todo, faz a pessoa se mover com rigidez e com medo, e isso pode piorar a dor em vez de preveni-la. É uma das razões pelas quais as diretrizes atuais para dor nas costas priorizam o movimento, como contamos no artigo sobre dor nas costas: repouso ou movimento.
O que realmente muda a postura?
Corrigir a postura por esforço consciente, lembrando de "ficar reto", dura até a próxima distração. O que muda a forma como o corpo se organiza é ter mais opções de movimento: mobilidade onde ela se perdeu, força para sustentar posições diferentes por mais tempo e controle para trocar de posição com facilidade.
Quem tem o quadril rígido tende a sentar de um jeito só. Quem tem a coluna torácica travada tende a projetar a cabeça. Quando a mobilidade e a força voltam, a postura muda sem que a pessoa precise pensar nela. Isso é raciocínio biomecânico, coerente com o que se sabe, e não um resultado medido em ensaio clínico.
Há uma exceção importante: mudanças de postura que aparecem de repente, que progridem ou que vêm com dor forte, perda de força ou formigamento pedem avaliação médica.
Onde o Pilates entra no cuidado com a postura?
O Pilates não serve para ensinar uma postura certa. Serve para ampliar o repertório: devolver mobilidade à coluna e ao quadril, fortalecer o tronco para que ele sustente posições diferentes, e treinar a troca entre elas. É o que descrevemos no artigo sobre Pilates para coluna, quando falamos de crescimento axial.
A postura também muda em fases específicas da vida, como a gestação, que explicamos no artigo sobre mudanças posturais na gestante. E a forma como a fáscia se organiza influencia o jeito como o corpo se sustenta, tema do artigo sobre o que é fáscia.
A aula experimental começa pela avaliação, e é ali que aparece onde o seu corpo perdeu opções.
Referências
- Christensen, S. T., & Hartvigsen, J. (2008). Spinal curves and health: a systematic critical review of the epidemiological literature dealing with associations between sagittal spinal curves and health. Journal of Manipulative and Physiological Therapeutics, 31(9), 690-714. doi:10.1016/j.jmpt.2008.10.004
- Swain, C. T. V., Pan, F., Owen, P. J., et al. (2020). No consensus on causality of spine postures or physical exposure and low back pain: a systematic review of systematic reviews. Journal of Biomechanics, 102, 109312. doi:10.1016/j.jbiomech.2019.08.006
- Richards, K. V., Beales, D. J., Smith, A. J., et al. (2016). Neck posture clusters and their association with biopsychosocial factors and neck pain in Australian adolescents. Physical Therapy, 96(10), 1576-1587. doi:10.2522/ptj.20150660
- Slater, D., Korakakis, V., O'Sullivan, P., et al. (2019). "Sit up straight": time to re-evaluate. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 49(8), 562-564. doi:10.2519/jospt.2019.0610
