Quem pensa em fazer Pilates em turma costuma ter a mesma dúvida: se todo mundo faz a mesma aula, como ela pode servir para mim? Eu tenho uma dor no joelho, minha amiga está grávida, o rapaz ao lado treina pesado. Este texto explica como uma aula com vários alunos continua sendo pensada para cada um.
Se todos fazem a mesma aula, ela é para mim?
A aula tem um roteiro comum, e isso é uma vantagem: um grupo que se move junto cria ritmo, atenção e constância. Mas o roteiro é só o ponto de partida. Dentro dele, cada aluno faz a versão do exercício que corresponde ao que o seu corpo precisa e consegue naquele momento.
É parecido com uma aula de idiomas em que todos leem o mesmo texto, mas cada um recebe perguntas no seu nível. O assunto é o mesmo. O desafio, não.
A carga é de cada um
Nos aparelhos, a resistência vem das molas, e elas são ajustadas aluno por aluno. Dois alunos lado a lado podem estar fazendo o mesmo movimento com cargas bem diferentes, cada um no ponto em que o exercício exige esforço de verdade sem perder a qualidade.
A carga também muda com o tempo. A mola que hoje é desafiadora para um aluno, em algumas semanas deixa de ser, e é ajustada de novo. É assim que o corpo continua respondendo, como explicamos no artigo sobre ganho de massa magra.
O exercício começa igual e evolui diferente
Muitos exercícios partem da mesma posição para todos, e dali se ramificam. Um aluno avança para uma variação mais exigente: tira um apoio, acrescenta um movimento de braço, passa para uma perna só. Outro permanece numa versão mais adequada ao seu momento, e trabalha nela com qualidade.
Ficar na versão mais simples não é ficar para trás. É fazer o exercício que constrói o próximo passo. Avançar antes da hora costuma trazer compensação, quando outros músculos assumem o trabalho que não é deles, como explicamos no artigo sobre biomecânica e compensação muscular.
A correção também é uma forma de individualizar?
Sim. Mesmo quando dois alunos fazem exatamente o mesmo exercício, com a mesma carga, a aula não é igual para os dois. Durante o movimento, quem conduz a aula observa cada corpo e corrige: um ajuste na posição do quadril, um toque para o ombro descer, um comando para a respiração acompanhar o esforço.
Essas correções mudam de pessoa para pessoa, porque cada corpo compensa de um jeito. Um aluno tende a jogar o esforço para a lombar, outro para o pescoço, outro deixa o joelho cair para dentro. A correção ajuda o corpo a se organizar e a fazer o trabalho com os músculos que deveriam fazê-lo, que é o sentido do princípio do controle descrito em O Pilates no Vitattiva. Por isso a mesma sequência de exercícios produz, em cada aluno, um trabalho diferente.
E a gestante, ou quem tem alguma condição específica?
Uma gestante pode fazer parte da aula igual aos outros alunos e parte de um jeito diferente, para respeitar as mudanças e as restrições de cada fase da gravidez. Um exercício de barriga para baixo, por exemplo, vira outro de lado ou sentado, que trabalha a mesma região sem pressão sobre o abdome. Contamos como a aula muda em cada trimestre no artigo sobre Pilates na gravidez.
O mesmo raciocínio vale para outras condições. Quem tem osteoporose troca os exercícios que dobram a coluna com força por outros que fortalecem com ela longa. Quem tem dor no joelho trabalha em amplitudes que não provocam dor. Quem está voltando de lesão começa com o corpo mais apoiado. Cada adaptação parte do que a avaliação mostrou.
Por que trabalhar o corpo inteiro, se a queixa é só uma?
Porque o corpo funciona como um conjunto. A dor no joelho muitas vezes tem relação com o quadril. A dor no ombro, com a escápula e o tronco. A lombar, com o quadril que perdeu mobilidade. Tratar só o lugar que dói costuma deixar de fora parte do problema, como mostramos nos artigos sobre biomecânica do quadril e dor no ombro.
Por isso a aula trabalha o corpo inteiro, e não apenas a região da queixa. Cada especificidade recebe atenção própria, mas dentro de um corpo que precisa funcionar como um todo. O ajuste de uma parte depende do resto estar organizado.
O que a evidência diz sobre individualizar o exercício?
A posição oficial do Colégio Americano de Medicina do Esporte sobre exercício, de 2011, recomenda que o programa seja ajustado à atividade habitual de cada pessoa, à sua capacidade física, ao seu estado de saúde, à forma como ela responde ao exercício e aos seus objetivos.
Na dor lombar crônica, uma revisão de 2005 reuniu 43 ensaios e encontrou que os programas desenhados individualmente e feitos com supervisão trouxeram mais melhora na dor do que exercícios feitos em casa sem acompanhamento. Os programas em grupo também melhoraram a dor em relação aos exercícios em casa. Ou seja, aula em grupo e atenção individual não são opostos.
Vale ser exato: não há estudos comparando diretamente o formato de aula que descrevemos aqui com outros formatos. O que a evidência sustenta são os princípios: individualizar, supervisionar e progredir.
Como a personalização começa?
Pela avaliação. Antes da primeira aula, observamos postura, marcha, controle do movimento e capacidade de gerar força, e conversamos sobre a sua história, as suas queixas e os seus objetivos. É dessa avaliação que saem as cargas, as variações e as adaptações de cada aluno.
As aulas são conduzidas por fisioterapeuta, e quando a avaliação indica uma condição a tratar, o exercício passa a ser conduzido como tratamento, como explicamos na seção sobre Pilates e fisioterapia. A aula experimental é o primeiro passo.
Referências
- Garber, C. E., Blissmer, B., Deschenes, M. R., et al. (2011). Quantity and quality of exercise for developing and maintaining cardiorespiratory, musculoskeletal, and neuromotor fitness in apparently healthy adults: guidance for prescribing exercise. Medicine & Science in Sports & Exercise, 43(7), 1334-1359. doi:10.1249/MSS.0b013e318213fefb
- Hayden, J. A., van Tulder, M. W., & Tomlinson, G. (2005). Systematic review: strategies for using exercise therapy to improve outcomes in chronic low back pain. Annals of Internal Medicine, 142(9), 776-785. doi:10.7326/0003-4819-142-9-200505030-00014
