O ombro é a articulação com mais mobilidade do corpo, e por isso uma das que mais dependem das outras. Quando ele dói, o problema costuma estar no ombro. Mas a causa, muitas vezes, está mais longe: na escápula, na coluna torácica, no tronco. Este texto explica essa relação e o que a evidência mostra sobre o tratamento.
Por que o ombro depende tanto do resto do corpo?
A cabeça do úmero se encaixa numa superfície pequena e rasa da escápula. Isso dá ao ombro a amplitude enorme que ele tem, e cobra um preço: a estabilidade depende dos músculos, principalmente do manguito rotador e dos músculos que controlam a escápula.
A escápula, por sua vez, desliza sobre a caixa torácica, que se apoia na coluna. Se a coluna torácica está rígida, ou se o tronco não sustenta, a escápula perde a base, e o ombro passa a trabalhar em posições piores.
Qual é o papel da escápula na dor do ombro?
Em 2013, um consenso internacional sobre a escápula reuniu especialistas para revisar o tema. Eles concluíram que alterações no movimento da escápula, a chamada discinesia escapular, estão presentes numa grande proporção das lesões do ombro, e que afetam especialmente os sintomas de impacto.
O mesmo consenso foi cuidadoso: o papel exato dessas alterações em causar ou piorar a dor ainda não está claramente definido. A recomendação foi tratá-las como um possível prejuízo à função do ombro, e incluir a reabilitação da posição e do movimento da escápula dentro de um programa mais amplo para o ombro.
O exame mostrou lesão no manguito. É ela que causa a dor?
Nem sempre. Um estudo de 1995 fez ressonância nos ombros de 96 pessoas sem nenhuma dor. No total, 34% tinham alguma ruptura do manguito rotador. Acima dos 60 anos, mais da metade tinha, e 28% tinham ruptura completa, com o ombro funcionando normalmente e sem dor.
Os autores alertaram para o risco de decidir uma cirurgia com base só na ressonância. Como na coluna e no joelho, o achado do exame e a dor podem andar separados, e quem interpreta o exame no contexto é o médico.
O que os estudos mostram sobre a cirurgia no ombro?
Para a dor de impacto, que é das mais comuns, dois ensaios importantes testaram a cirurgia chamada descompressão subacromial contra uma cirurgia simulada, em que o cirurgião só olhava a articulação, sem fazer a descompressão.
No ensaio britânico publicado no The Lancet em 2018, com 313 pessoas, a descompressão não foi melhor que a cirurgia simulada depois de seis meses. No ensaio finlandês publicado no BMJ no mesmo ano, também não houve benefício da descompressão sobre a cirurgia simulada depois de dois anos.
Isso não vale para todas as lesões de ombro, e a decisão cirúrgica é sempre do médico. Mas, para a dor de impacto, esses estudos reforçaram o tratamento conservador como primeiro caminho.
O que o exercício faz pelo ombro?
O exercício trabalha as duas coisas de que o ombro depende: a força do manguito rotador e o controle da escápula sobre o tronco. O consenso de 2013 considera que programas para restaurar a posição e o movimento da escápula podem ser eficazes quando fazem parte de uma reabilitação completa do ombro.
O raciocínio que usamos vai além do ombro: sem uma coluna torácica que se mova e um tronco que sustente, a escápula não tem onde se apoiar. É a mesma lógica da compensação muscular. Esse raciocínio é coerente com o consenso, mas não foi testado como protocolo em ensaio clínico.
Onde o Pilates entra na dor no ombro?
Nos aparelhos, as molas permitem fortalecer o manguito e os músculos da escápula com carga baixa e controlada, em várias direções, com o tronco apoiado. Depois, o trabalho vai para os movimentos em que o ombro é usado de verdade: empurrar, puxar, levantar o braço acima da cabeça, arremessar. Contamos mais sobre isso no artigo sobre Pilates para atletas.
Quando a dor limita o dia a dia, o exercício é conduzido como fisioterapia, como explicamos na seção sobre Pilates e fisioterapia. A aula experimental começa pela avaliação.
Referências
- Kibler, W. B., Ludewig, P. M., McClure, P. W., et al. (2013). Clinical implications of scapular dyskinesis in shoulder injury: the 2013 consensus statement from the "scapular summit". British Journal of Sports Medicine, 47(14), 877-885. doi:10.1136/bjsports-2013-092425
- Sher, J. S., Uribe, J. W., Posada, A., et al. (1995). Abnormal findings on magnetic resonance images of asymptomatic shoulders. The Journal of Bone & Joint Surgery, 77(1), 10-15. doi:10.2106/00004623-199501000-00002
- Beard, D. J., Rees, J. L., Cook, J. A., et al. (2018). Arthroscopic subacromial decompression for subacromial shoulder pain (CSAW): a multicentre, pragmatic, parallel group, placebo-controlled, three-group, randomised surgical trial. The Lancet, 391(10118), 329-338. doi:10.1016/S0140-6736(17)32457-1
- Paavola, M., Malmivaara, A., Taimela, S., et al. (2018). Subacromial decompression versus diagnostic arthroscopy for shoulder impingement: randomised, placebo surgery controlled clinical trial. BMJ, k2860. doi:10.1136/bmj.k2860
