A dor no pescoço é uma das queixas mais comuns de quem passa o dia diante de uma tela. A explicação mais repetida é a postura: a cabeça projetada para a frente, os ombros caídos. Ela tem uma parte de verdade, e uma parte que os estudos não confirmam. Este texto separa as duas e mostra o que costuma funcionar.
A dor no pescoço é culpa da postura?
Menos do que se costuma dizer. Um estudo australiano avaliou a postura sentada de 1.108 adolescentes de 17 anos e identificou quatro padrões, do mais ereto ao mais curvado, com a cabeça projetada para a frente. Não houve diferença na chance de ter dor no pescoço ou dor de cabeça entre os grupos. O grupo mais ereto era o que se exercitava com mais frequência.
O estudo foi feito com adolescentes, e os próprios autores alertam que o resultado pode não valer para adultos. Mas ele vai na mesma direção de outras pesquisas sobre postura e dor, que reunimos no artigo sobre postura: a relação entre a posição do corpo e a dor é mais fraca do que parece.
O que costuma pesar mais é o tempo parado na mesma posição, a falta de pausas, o sono, o estresse e a pouca atividade física no resto do dia.
O exercício ajuda na dor cervical?
Ajuda, principalmente na dor que já dura um tempo. Uma revisão Cochrane de 2015 reuniu 27 ensaios sobre exercício para dor no pescoço sem causa específica. Para a dor crônica, com evidência de qualidade moderada, o treino de força para pescoço, ombros, escápulas e braços reduziu a dor de forma moderada a grande logo após o tratamento e no curto prazo.
Programas que combinaram fortalecimento e alongamento do pescoço, dos ombros e da região das escápulas também ajudaram na dor e na função. Para a dor aguda, a revisão não encontrou evidência.
Qual exercício funciona melhor para o pescoço?
A mesma revisão encontrou evidência de baixa qualidade de que alongamento sozinho, exercícios de respiração ou condicionamento geral talvez não mudem a dor nem a função. O que teve melhor resultado foi o fortalecimento, especialmente da musculatura que sustenta as escápulas e os braços.
Faz sentido: o pescoço sustenta a cabeça, mas se apoia sobre as escápulas, que se apoiam no tronco. Quando essa base não sustenta, o pescoço trabalha mais. É o mesmo raciocínio do artigo sobre o ombro.
O que muda na rotina de quem trabalha sentado?
Algumas orientações práticas costumam ajudar, mesmo sem ensaios que as comparem entre si:
- Variar a posição ao longo do dia. A melhor postura costuma ser a próxima.
- Fazer pausas curtas para levantar, caminhar e mover os ombros e o pescoço.
- Deixar a tela na altura dos olhos, para não passar horas olhando para baixo.
- Treinar força fora do trabalho, de forma regular.
Quando a dor no pescoço pede o médico?
Procure avaliação médica se a dor vier depois de uma pancada ou acidente, se houver formigamento, dormência ou perda de força nos braços, tontura, alteração da visão, dificuldade para andar, febre, ou dor de cabeça forte e diferente do habitual.
Onde o Pilates entra na dor cervical?
O Pilates trabalha o que a evidência aponta: força da musculatura que sustenta as escápulas e os braços, controle do tronco que serve de base para elas, e mobilidade da coluna torácica, que costuma travar em quem passa o dia sentado. Nos aparelhos, as molas permitem fortalecer braços e escápulas com carga que progride.
Quando a dor limita o dia a dia ou irradia para os braços, o exercício é conduzido como fisioterapia, como explicamos na seção sobre Pilates e fisioterapia. A aula experimental começa pela avaliação.
Referências
- Richards, K. V., Beales, D. J., Smith, A. J., et al. (2016). Neck posture clusters and their association with biopsychosocial factors and neck pain in Australian adolescents. Physical Therapy, 96(10), 1576-1587. doi:10.2522/ptj.20150660
- Gross, A., Kay, T. M., Paquin, J. P., et al. (2015). Exercises for mechanical neck disorders. Cochrane Database of Systematic Reviews, (1), CD004250. doi:10.1002/14651858.CD004250.pub5
- Slater, D., Korakakis, V., O'Sullivan, P., et al. (2019). "Sit up straight": time to re-evaluate. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 49(8), 562-564. doi:10.2519/jospt.2019.0610
