Pilates para atletas: corrida, arremesso e mudança de direção

Força 28 de setembro de 2026 4 min de leitura
Homem atlético, descalço e de roupa preta, em base afastada girando o tronco com uma medicine ball nas mãos, preparando um arremesso, em estúdio escuro com luz lateral.

No esporte, a força raramente é produzida no lugar onde é usada. O arremesso começa no pé de apoio. O chute começa no tronco. A mudança de direção depende do quadril tanto quanto do joelho. Este texto explica essa lógica e o que o Pilates pode acrescentar ao treino de quem pratica esporte, com a evidência de cada parte.

De onde vem a força no gesto esportivo?

A força nasce no chão e atravessa o corpo em sequência: pé, perna, quadril, tronco, ombro e, por fim, a mão ou o pé que toca a bola. Cada elo soma a sua parte e passa adiante. Quando um elo cede, a força se perde no caminho, e a carga que não foi absorvida onde deveria vai parar em outro lugar.

É a mesma ideia dos quatro padrões do movimento: ficar em pé, caminhar, correr e arremessar são a base de quase todo gesto esportivo.

Qual é o papel do tronco no esporte?

Uma revisão de 2006 sobre o papel do core na função atlética definiu a estabilidade do tronco como a capacidade de controlar a posição e o movimento do tronco sobre a pelve, para produzir, transferir e controlar força até a extremidade que executa o gesto. Os autores descrevem o princípio de estabilidade proximal para mobilidade distal: um centro estável permite que braços e pernas se movam com força e precisão.

A mesma revisão recomenda que a avaliação do tronco seja dinâmica, sobre a perna de apoio e nos três planos de movimento, e que a reabilitação trate o tronco como base para a função de braços e pernas.

O que a evidência sustenta, e o que não?

Sustenta com força: treino de força previne lesões. Uma meta-análise de 2014 mostrou que ele reduz as lesões esportivas para menos de um terço, e outra, de 2018, mostrou que a proteção cresce com a dose.

Sustenta com cautela: o controle do joelho na aterrissagem importa. Num estudo com 205 atletas mulheres, as que romperam o ligamento cruzado já aterrissavam com o joelho mais caído para dentro, como contamos no artigo sobre biomecânica do quadril.

Sustenta pouco: treino isolado de core melhora o desempenho. Uma revisão de 2012 encontrou benefício pequeno do treino específico de estabilidade do tronco sobre o desempenho atlético. É por isso que o trabalho de tronco precisa ser integrado ao gesto, e não feito só deitado.

O que muda para quem corre?

Na corrida, cada passada é um apoio numa perna só, com impacto. O quadril precisa segurar a pelve, o tronco precisa ficar estável enquanto braços e pernas se alternam, e os tecidos precisam absorver e devolver energia. Corredores costumam ser fortes para frente e para trás, e menos preparados para controlar a rotação e a inclinação lateral.

Para o corredor, a proteção também passa pela carga: aumentos rápidos de volume de treino estão entre os principais fatores de risco de lesão, como mostramos no artigo sobre lesão em quem treina pesado.

E para arremesso e mudança de direção?

No arremesso, o ombro é o último elo de uma cadeia que começa nas pernas. Quando o quadril e o tronco não giram e não transferem força, o ombro tenta compensar, e a carga se concentra nele e no cotovelo. É o raciocínio que desenvolvemos no artigo sobre dor no ombro.

Na mudança de direção, o corpo freia e acelera em fração de segundo sobre uma perna. O controle do quadril e do tronco decide se a carga vai para os músculos ou para os ligamentos do joelho.

Esse raciocínio de cadeia é coerente com a revisão de 2006 e com os estudos sobre o joelho, mas a ideia de que treinar o elo fraco melhora o gesto e reduz lesão não foi testada, como protocolo, em ensaio clínico.

Onde o Pilates entra no treino de atletas?

O Pilates entra junto com o treino de força e com o treino específico do esporte, e não no lugar deles. Ele trabalha o que os dois costumam deixar de lado: controle do tronco enquanto braços e pernas se movem, rotação com força, apoio numa perna, mobilidade do quadril e da coluna torácica. Nos aparelhos, o carrinho que desliza e as molas exigem controle o tempo todo.

O trabalho começa com o corpo apoiado e vai para os movimentos em pé que imitam o esporte. Quando há lesão, o exercício é conduzido como fisioterapia, como explicamos na seção sobre Pilates e fisioterapia. A aula experimental começa pela avaliação.

Referências

  1. Kibler, W. B., Press, J., & Sciascia, A. (2006). The role of core stability in athletic function. Sports Medicine, 36(3), 189-198. doi:10.2165/00007256-200636030-00001
  2. Lauersen, J. B., Bertelsen, D. M., & Andersen, L. B. (2014). The effectiveness of exercise interventions to prevent sports injuries: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. British Journal of Sports Medicine, 48(11), 871-877. doi:10.1136/bjsports-2013-092538
  3. Lauersen, J. B., Andersen, T. E., & Andersen, L. B. (2018). Strength training as superior, dose-dependent and safe prevention of acute and overuse sports injuries: a systematic review, qualitative analysis and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 52(24), 1557-1563. doi:10.1136/bjsports-2018-099078
  4. Hewett, T. E., Myer, G. D., Ford, K. R., et al. (2005). Biomechanical measures of neuromuscular control and valgus loading of the knee predict anterior cruciate ligament injury risk in female athletes: a prospective study. The American Journal of Sports Medicine, 33(4), 492-501. doi:10.1177/0363546504269591
  5. Reed, C. A., Ford, K. R., Myer, G. D., & Hewett, T. E. (2012). The effects of isolated and integrated "core stability" training on athletic performance measures: a systematic review. Sports Medicine, 42(8), 697-706. doi:10.2165/11633450-000000000-00000
  6. Soligard, T., Schwellnus, M., Alonso, J. M., et al. (2016). How much is too much? (Part 1) International Olympic Committee consensus statement on load in sport and risk of injury. British Journal of Sports Medicine, 50(17), 1030-1041. doi:10.1136/bjsports-2016-096581

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