No esporte, a força raramente é produzida no lugar onde é usada. O arremesso começa no pé de apoio. O chute começa no tronco. A mudança de direção depende do quadril tanto quanto do joelho. Este texto explica essa lógica e o que o Pilates pode acrescentar ao treino de quem pratica esporte, com a evidência de cada parte.
De onde vem a força no gesto esportivo?
A força nasce no chão e atravessa o corpo em sequência: pé, perna, quadril, tronco, ombro e, por fim, a mão ou o pé que toca a bola. Cada elo soma a sua parte e passa adiante. Quando um elo cede, a força se perde no caminho, e a carga que não foi absorvida onde deveria vai parar em outro lugar.
É a mesma ideia dos quatro padrões do movimento: ficar em pé, caminhar, correr e arremessar são a base de quase todo gesto esportivo.
Qual é o papel do tronco no esporte?
Uma revisão de 2006 sobre o papel do core na função atlética definiu a estabilidade do tronco como a capacidade de controlar a posição e o movimento do tronco sobre a pelve, para produzir, transferir e controlar força até a extremidade que executa o gesto. Os autores descrevem o princípio de estabilidade proximal para mobilidade distal: um centro estável permite que braços e pernas se movam com força e precisão.
A mesma revisão recomenda que a avaliação do tronco seja dinâmica, sobre a perna de apoio e nos três planos de movimento, e que a reabilitação trate o tronco como base para a função de braços e pernas.
O que a evidência sustenta, e o que não?
Sustenta com força: treino de força previne lesões. Uma meta-análise de 2014 mostrou que ele reduz as lesões esportivas para menos de um terço, e outra, de 2018, mostrou que a proteção cresce com a dose.
Sustenta com cautela: o controle do joelho na aterrissagem importa. Num estudo com 205 atletas mulheres, as que romperam o ligamento cruzado já aterrissavam com o joelho mais caído para dentro, como contamos no artigo sobre biomecânica do quadril.
Sustenta pouco: treino isolado de core melhora o desempenho. Uma revisão de 2012 encontrou benefício pequeno do treino específico de estabilidade do tronco sobre o desempenho atlético. É por isso que o trabalho de tronco precisa ser integrado ao gesto, e não feito só deitado.
O que muda para quem corre?
Na corrida, cada passada é um apoio numa perna só, com impacto. O quadril precisa segurar a pelve, o tronco precisa ficar estável enquanto braços e pernas se alternam, e os tecidos precisam absorver e devolver energia. Corredores costumam ser fortes para frente e para trás, e menos preparados para controlar a rotação e a inclinação lateral.
Para o corredor, a proteção também passa pela carga: aumentos rápidos de volume de treino estão entre os principais fatores de risco de lesão, como mostramos no artigo sobre lesão em quem treina pesado.
E para arremesso e mudança de direção?
No arremesso, o ombro é o último elo de uma cadeia que começa nas pernas. Quando o quadril e o tronco não giram e não transferem força, o ombro tenta compensar, e a carga se concentra nele e no cotovelo. É o raciocínio que desenvolvemos no artigo sobre dor no ombro.
Na mudança de direção, o corpo freia e acelera em fração de segundo sobre uma perna. O controle do quadril e do tronco decide se a carga vai para os músculos ou para os ligamentos do joelho.
Esse raciocínio de cadeia é coerente com a revisão de 2006 e com os estudos sobre o joelho, mas a ideia de que treinar o elo fraco melhora o gesto e reduz lesão não foi testada, como protocolo, em ensaio clínico.
Onde o Pilates entra no treino de atletas?
O Pilates entra junto com o treino de força e com o treino específico do esporte, e não no lugar deles. Ele trabalha o que os dois costumam deixar de lado: controle do tronco enquanto braços e pernas se movem, rotação com força, apoio numa perna, mobilidade do quadril e da coluna torácica. Nos aparelhos, o carrinho que desliza e as molas exigem controle o tempo todo.
O trabalho começa com o corpo apoiado e vai para os movimentos em pé que imitam o esporte. Quando há lesão, o exercício é conduzido como fisioterapia, como explicamos na seção sobre Pilates e fisioterapia. A aula experimental começa pela avaliação.
Referências
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- Lauersen, J. B., Andersen, T. E., & Andersen, L. B. (2018). Strength training as superior, dose-dependent and safe prevention of acute and overuse sports injuries: a systematic review, qualitative analysis and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 52(24), 1557-1563. doi:10.1136/bjsports-2018-099078
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