Quem descobre uma escoliose, em si ou num filho, quase sempre faz a mesma pergunta: dá para corrigir com exercício? A resposta mais honesta tem várias partes, e depende muito da idade e do tamanho da curva. Este texto explica o que a evidência mostra, e onde o exercício tem um papel real.
O que é escoliose?
Escoliose é uma curva lateral da coluna, geralmente acompanhada de uma rotação das vértebras. Vista de trás, a coluna desenha um C ou um S. A forma mais comum é a idiopática, que não tem uma causa identificada e costuma aparecer ou progredir durante o crescimento, na adolescência.
O tamanho da curva é medido no raio X, em graus. O diagnóstico, o acompanhamento e a decisão sobre o tratamento são do médico, geralmente o ortopedista especialista em coluna.
Por que a adolescência é a fase mais importante?
Porque é durante o crescimento que a curva tende a aumentar. Depois que o esqueleto amadurece, a tendência de progressão costuma diminuir, e o médico avalia caso a caso. Por isso o objetivo do tratamento na adolescência é, principalmente, impedir que a curva cresça até o ponto em que a cirurgia seja indicada.
As diretrizes da Sociedade Internacional de Tratamento Ortopédico e de Reabilitação da Escoliose, publicadas em 2018, reúnem 68 recomendações sobre avaliação, colete, exercícios específicos e esporte para escoliose idiopática durante o crescimento.
O exercício corrige a escoliose?
A evidência ainda é limitada. Uma revisão Cochrane de 2012 encontrou apenas dois estudos, e concluiu que faltava evidência de alta qualidade para recomendar os exercícios específicos para escoliose. Um estudo de baixa qualidade sugeriu que eles aumentavam a eficácia de outros tratamentos conservadores.
As diretrizes de 2018 registram que, nos anos seguintes, começaram a aparecer ensaios randomizados melhores sobre esses exercícios, e trazem recomendações para usá-los com o objetivo de evitar a progressão durante o crescimento. Mas os próprios autores ressaltam que a variação entre os protocolos limita as conclusões.
O ponto importante é este: esses são exercícios específicos para escoliose, desenhados para a curva de cada pessoa e prescritos dentro de um acompanhamento. Exercício geral, incluindo o Pilates, não substitui esse tratamento nem corrige a curva.
E o colete funciona?
Para curvas com alto risco de progressão, sim. Um ensaio publicado no New England Journal of Medicine em 2013 foi interrompido antes do fim porque o benefício do colete ficou evidente. Entre os adolescentes sorteados para usar o colete, 75% chegaram ao fim do crescimento sem atingir o limite de indicação cirúrgica, contra 42% dos que foram só observados. Quanto mais horas por dia de uso, melhor o resultado.
A indicação do colete é médica, e depende do tamanho da curva, da idade e da fase do crescimento.
E quem tem escoliose na vida adulta?
No adulto, o foco muda. A curva raramente é o objetivo do tratamento. O objetivo passa a ser a dor, quando existe, a força, a mobilidade e a capacidade de fazer as atividades do dia a dia.
Muitas pessoas com escoliose leve ou moderada não têm dor nenhuma, e podem fazer qualquer atividade física. Como mostramos no artigo sobre postura, a forma da coluna tem relação mais fraca com a dor do que se costuma dizer. Quando há dor, a abordagem é parecida com a de outras dores nas costas, que descrevemos no artigo sobre dor nas costas.
Onde o Pilates entra na escoliose?
Com clareza sobre o que ele não faz: o Pilates não corrige a curva e não substitui o acompanhamento médico, o colete ou os exercícios específicos para escoliose quando eles são indicados.
O que ele faz é o que qualquer coluna precisa: força do tronco e do quadril, mobilidade, controle e consciência do movimento, adaptados à assimetria de cada pessoa. Para o adulto com escoliose, é uma forma segura de se manter forte e ativo. Nos aparelhos, o trabalho pode ser ajustado de cada lado, respeitando o que a curva permite. Explicamos o raciocínio no artigo sobre Pilates para coluna.
A aula experimental começa pela avaliação. Traga o seu último raio X e as orientações do seu médico.
Referências
- Negrini, S., Donzelli, S., Aulisa, A. G., et al. (2018). 2016 SOSORT guidelines: orthopaedic and rehabilitation treatment of idiopathic scoliosis during growth. Scoliosis and Spinal Disorders, 13, 3. doi:10.1186/s13013-017-0145-8
- Romano, M., Minozzi, S., Bettany-Saltikov, J., et al. (2012). Exercises for adolescent idiopathic scoliosis. Cochrane Database of Systematic Reviews, (8), CD007837. doi:10.1002/14651858.CD007837.pub2
- Weinstein, S. L., Dolan, L. A., Wright, J. G., & Dobbs, M. B. (2013). Effects of bracing in adolescents with idiopathic scoliosis. New England Journal of Medicine, 369(16), 1512-1521. doi:10.1056/NEJMoa1307337
